sábado, 25 de maio de 2024

A avó, de Antônia Pozzi


Abraço-te para sentir a tua carne

cheia de paz e íntima da morte -

tão fresca e sombria

junto da minha respiração.

Para lá das palavras: escutamos

pulsações iguais - e apenas um

derradeiro sorvo de vida.

Na margem de negros lagos

volta a iluminar-se

este olho que só tu tornaste azul;

assim encostada ao teu regaço

e fechada no teu ventre

profundo, uno-me

ao teu peso mortal que se desvanece:

de tal modo que já não nos separa a terra -

mas para ambas se torna escura e leve.

Antônia Pozzi (1912-1938) - poeta italiana

Obra de arte de Amadeo Luciano Lorenzato (1900-1995)

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Diospiros de Jorge de Sousa Braga


Há frutos que é preciso

acariciar

com os dedos

com a língua

e só depois

muito depois

se deixam morder.

Jorge de Sousa Braga (1957), poeta português

Arte de Dede Fedrizzi

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Ítaca, de Daniel Faria


O que dói

é não poder apagar a tua ausência

e repetir dia após dia os mesmos gestos.


O que dói

é o teu nome que ficou como mendigo

descoberto em cada esquina dos meus versos.


O que dói

é tudo e mais aquilo que desteço

ao tecer para ti novos regressos.

Daniel Faria (1971-1999), poeta português

Arte de Antônio Maia (1928) 

sexta-feira, 15 de março de 2024

Infância de Carlos de Oliveira


Sonhos

enormes como cedros

que é preciso

trazer de longe

aos ombros

para achar 

no universo da memória

este rumor

de lume:

o teu perfume,

lenha 

da melancolia.

Carlos de Oliveira (1921-1981), poeta português, nascido em Belém do Pará

Obra de arte de Amadeo Luciano Lorenzato, artista mineiro 


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Conselho de Eugénio de Andrade


Conselho

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda
como um fruto
ao passar o vento
que mereça.

Eugénio de Andrade (1923-2005), poeta português

Arte de Aldemir Martins (1922-2006)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Um aforismo de Jean Cocteau


"Eu sei que a poesia é imprescindível, só não sei para o quê."

Jean Cocteau (1889-19963), poeta e romancista francês.

Belíssima paisagem do artista cearense Aldemir Martins (1922-2006)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Um aforismo de Manuel de Freitas


"Os poemas são como o mundo: não rimam".

Manuel de Freitas, poeta português

Belíssimo pássaro do artista Aldemir Martins (1922-2006)

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Envelhecer de José Gomes Ferreira


(Diante de um espelho)

Envelhecer é este frio de flor seca. Caverna desabitada.
com um figura ao centro, a arrefecer devagar.

- tempo

sem altar onde os frutos já não transformam
a magia do sol em sumo.

E os ponteiros de cinza
dos relógios
em vez de aquecerem o tempo
desfazem as horas em fumo.

José Gomes Ferreira (1900-1985), poeta português

Belíssima tela do artista gaúcho Glênio Bianchetti (1928-2014)

 

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Tréguas de Eunice de Souza


Este poema é para ti.

É uma oferta de tréguas

dizendo que

nada no teu coração negro

me poderá assustar.

Olhei tempo demais

para o meu próprio coração.

Obrigada pela dádiva

das tuas incertezas.

Eunice de Souza (1940-2017), poeta indiana

Obra de arte de Waldomiro de Deus

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Despedir-se, de Joan Margarit


Retirei tapetes de cortinas,
as mesas nas quais há muito não como nem escrevo.

Tirei os quadros e pintei os muros
para apagar as marcas de tantos anos.

Guardei alguns livros. Sei bem quais.
Destruí cartas de amor.
Silenciosos, os amores
são agora icebergs errantes dos pensamento.

A casa, sem recantos para o medo,
despe-me os olhos. Nem a esperança
perturbará a última morte.

Outra casa não há para os que amo.

Joan Margarit (1938-2021), poeta espanhol

Obra de arte, um Dom Quixote, do artista mineiro Gledson Franqueira Amorelli

 

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

A Despedida de Bertolt Brecht


Nós nos abraçamos.

Eu toco um tecido fino
você toca um tecido barato.

O abraço é ligeiro.

Você vai para um jantar.

Eu fujo dos carrascos que me seguem.

Falamos de tempo e da nossa inabalável amizade.

Todo o resto seria amargo demais.

Bertolt Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo alemão

Maravilhosa tela do artista paulista Clóvis Graciano (1907-1988) 

 

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Instruções de Linda Pastan

 


Você deve embalar sua dor em seus braços
até que ela durma, e depois deixá-la
em seu quarto já escuro
e sair nas pontas dos pés.

Por um momento, você sentirá 
o vazio que a paz traz.

Mas no quarto ao lado
sua dor já está se agitando.

Em breve, estará
chamando seu nome.

Linda Pastan (1932-2023), poeta norte-americana

Desenho do artista cearense Aldemir Martins

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Como foi curta a noite, de Abelardo Linares

 

 
Cheiram a ti os lençóis, meu amor, e ainda
está aberto em cima da mesa o teu livro
e há roupa pelo chão e discos e tabaco.
 
Embora já não estejas aqui, os meu braços ainda te procuram.
E neste fingimento de abraçar-te na almofada
persigo a tua lembrança, a tua cintura, os teus ombros.
 
O teu corpo não foi um sonho e talvez na casa de banho
a minha escova me espere, molhada pela tua boca,
ou húmidas toalhas que secaram o teu cabelo.
 
Cheiram a ti os lençóis. O quarteirão desperta.
Há vozes na rua e luz detrás da persiana.
Deve ir alto o sol. Como foi curta a noite.

 
Abelardo Linares (1952), poeta espanhol
Trípticos Espanhóis 1º
tradução de Joaquim Manuel Magalhães
Relógio d´Água
 1998

Tela do imenso artista italiano Amadeo Mondigliani (1884-1920) 

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Você está pronto para amar?, de Abdellatif Laâbi

Você está pronto para amar

sem conhecer o final da história

sem perguntar pelo nome

a proveniência ou o destino?

Amar baixando os olhos

sem devorar a mão que aperta

sem fogo ou contra fogo

de desejos nem ultrajes.

Amar de perto

e mais ainda de longe.

Amar como respirar

sem defesa nem colete salva-vidas

na fogueira das purificações

e sob a tempestade das paixões inconfessáveis?

Está preparado para viver

desse amor

de água fresca

e plumagem de pássaro ordinário

ardendo no fogo da utopia

do qual não se sabe

se restarão cinzas?

Abdellatif Laâbi  (1942), imenso poeta marroquino

A maravilhosa obra de arte, intitulada "O Beijo" é do grande artista italiano Francesco Hayez (1791-1882)

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Luxúria de Amália Bautista


Não pode haver pecado nesta entrega,
neste desfiar-se que impede o nada,
neste ato de fé.

Que ninguém se lembre de nos vir com uma história
cheia de repressão e negações.

Quem não percebe a generosidade
entre a minha pele e as tuas mãos
não deve falar.

Amália Bautista (1962), poeta espanhola

Obra de arte de Carybé, artista nascida na argentina e baiano por opção
 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Intimidade e sonho, de Al-Mu'tamid

 

partilhavas o meu leito nesse sonho,

o teu braço macio era a almofada

e com a paixão da insônia me enlaçavas,

eu beijava-te a boca, a nuca a face

antes de, enfim te possuir.


pelo teu amor!

se não me trouxesse o sonho a tua imagem

jamais experimentaria o sabor do sono!


Al-Mu'tamid (1040-1095), o rei-poeta de Sevilha.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Órfãos da eternidade, de Charles Simic


Uma noite você e eu caminhávamos

A lua estava tão clara

Que podíamos ver a trilha sob as árvores

Então as nuvens vieram e a esconderam

E tivemos que tatear o caminho

Até sentir areia sob os pés descalços

E ouvir as ondas quebrando.


Lembra que você me disse:

"Tudo fora deste momento é uma mentira"?

Nos despíamos no escuro

Bem na linha da água

Quando tirei meu relógio do pulso

E, sem ser visto ou dizer

Nada em resposta, joguei-o no mar.

Charles Simic (1938-2023) 

poeta norte-americano nascido na Sérvia.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

O amor depois do amor, de Derek Walcott

Virá o tempo

quando, com euforia,

você vai saudar a si mesmo chegando

à sua porta, diante do seu espelho,

e sorrindo um dará ao outro as boas-vindas,

e dirá: sente-se aqui. Coma.

Você amará novamente o estranho que era você.

Ofereça vinho. E pão. Devolva o seu coração

para si mesmo, para o estranho que te amou

por toda a sua vida, a quem você ignorou

mas que te conhece de cor.

Recolha as cartas de amor na estante,

as fotografias, as anotações de angústia,

descole sua imagem do espelho.

Sente-se. Celebre sua vida.

Derek Walcott (1930-2017)

poeta nascido nas Antilhas, vencedor do Nobel de Literatura de 92.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Acontecimento, de Albano Martins

Tu choravas e eu ia apagando

com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas

- riscos na areia mole e quente do teu rosto.

Choravas como quem se procura.

E eu descobria mundos, inventava nomes,

enquanto ia espremendo com as mãos

o meu sangue todo no teu sangue.


Não sei se o mundo existia e nós existíamos, realmente.

Sei que tudo estava suspenso,

esperando não sei que grave acontecimento

e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos meus sentidos.

Só a minha boca era uma abelha inquieta

percorrendo e picando o teu corpo de beijos.


Depois só dei pela manhã,

a manhã atrevida,

entrando devagar, muito devagar e acordando-me.

Desviei os meus olhos para ti:

ao longo do teu corpo morriam as estrelas.

A noite partira. E lentamente,

o sol rompeu no céu a tua boca.


Albano Martins (1930-2018) - poeta português.

A tela é do artista paulista Martins de Porangaba.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Creio nos anjos, de Natália Correia


Creio nos anjos que andam pelo mundo,

creio na deusa com olhos de diamantes,

creio em amores lunares com piano ao fundo,

creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,


Creio num engenho que falta mais fecundo

de harmonizar as partes dissonantes,

creio que tudo é eterno num segundo,

creio num céu futuro que houve dantes,


Creio nos deuses de um astral mais puro,

na flor humilde que se encosta ao muro,

creio na carne que enfeitiça o além,


Creio no incrível, nas coisas assombrosas,

na ocupação do mundo pelas rosas,

creio que o amor tem asas de ouro.


Natália Correia (1923-1993)

escritora e poetisa portuguesa