sexta-feira, 7 de março de 2025

A guerra terá um fim, de Mahmoud Darwish


A guerra terá um fim.
Os líderes trocarão apertos de mãos.
A idosa continuará esperando pelo filho martirizado.
Aquela moça vai esperar pelo amado marido.
E essas crianças esperarão por seu heroico pai.
Não sei quem vendeu nossas terras.
Mas eu vi quem pagou o preço.

Mahmoud Darwish

poeta palestino - (1941-2008)

A fotografia é do interior do museu norte-americano MOMA, em Nova Iorque.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Cães, de Afonso Cruz

Já não me lembro onde enterrei os cães que tive.

E que me amaram com mais fidelidade do que Deus.

Mas ainda os ouço ladrar nos meus sonhos.

Para que lhes atire uma bola e eu,

ao acordar, faço um  gesto largo com o braço,

como quem atira uma memória

e espero com lágrimas nos olhos uma bola.

Que não virá.

Afonso Cruz - escritor e poeta português.

A foto é um flagrante, triste e comovente, de hoje, na Rua Gandavo, na Vila Mariana, bairro da cidade de São Paulo.

 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

O humor refinado de Anatole France


"Nunca empreste seus livros, ninguém os devolve; os únicos livros que eu tenho em minha biblioteca são aqueles que outras pessoas me emprestaram".

Anatole France - escritor francês.

Placa encontrada na bela "Libreria Dante e Descartes", na cidade de Napoli. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A beleza, por Gonçalo M. Tavares


"A beleza é aquilo que é amado. A admiração e o assombro atiram pólen às coisas. O dia seguinte só surge porque algo do dia anterior não foi compreendido".

Gonçalo M. Tavares - escritor e poeta português.

Obra de arte de "Artemisia Gentileschi", Madalena, exposta no Chiosto di Santa Chiara, em Nápoli. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Gosto de me deitar, de Adília Lopes

Gosto de me deitar

sem sono

para ficar

a lembrar-me

das coisas boas

deitada

dentro da cama

às escuras

de olhos fechados

abraçada a mim.

Adília Lopes

poeta portuguesa (1960-2024)

Foto numa tarde no Central Park, Nova Iorque.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Nostalgia, de Svetlana Boym


"Nostalgia parece ser a saudade de um lugar, mas a rigor é o desejo ardente de um tempo diferente - o tempo da nossa infância, os ritmos mais vagarosos de nossos sonhos. Em sentido mais amplo, nostalgia é um revolta contra a noção moderna de tempo, o tempo da história e do progresso. O nostálgico quer apagar a história e transformá-la numa mitologia privada ou coletiva, para visitar novamente o tempo como espaço, recusando-se a aceitar a irreversibilidade do tempo que aflige a condição humana".

Svetlana Boym - romancista e artista russa-americana - Revista Serrote nº 9

Foto de uma fachada em ruínas pela estrada da Costa Amalfitana

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Cara, de Maria do Rosário Pedreira


Às vezes, depois de termos dito o que

devíamos mas não devíamos, depois de

essa palavra que deixamos fugir pesar

insuportavelmente dentro de nós - não


há outro remédio senão desaparecer,

sumir - abrir a porta da rua e apanhar

a bofetada do vento em cheio na cara.


Maria do Rosário Pedreira - poeta portuguesa

A foto é de um maravilhoso mosaico no piso da Galeria Umberto I em Nápoli.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Indo para a cama em uma noite de Dezembro, de Ellen Bass


Quando deslizo sob o cobertor e me aninho

em seu calor, penso que somos como páginas

de uma carta de amor escrita há trinta anos,

que algum deus antigo ainda lê, dia após dia,

e depois guarda de volta em seu envelope.

Ellen Bass - poeta norte-americana.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Use as coisas ao seu redor, de Raymond Carver


Use as coisas ao seu redor.
Esta chuva leve
lá fora, por exemplo.
Este cigarro entre meus dedos.
Estes pés em cima do sofá.
O som distante de um rock-and-roll,
a Ferrari vermelha na minha cabeça.
A mulher trombando,
bêbada, na cozinha...
Traga tudo para dentro, use tudo.

Raymond Carver 
poeta norte-americano

Foto de magnífica porta em prédio residencial na Piazza del Gesù Nuovo, em Napoles.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024


Cuidado com a tua dor.

É um pássaro que canta

só para ti.

E lá fora o mundo inteiro é surdo.

Jila Mossaed

escritora e poeta sueca, nascida no Irã. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

O mar, por Herberto Helder


"Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confiança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum  homem pode".

Herberto Helder
poeta português - (1930-2015)
trecho pinçado do livro "Os passos em volta".

A foto do mar é de Positano, Costa Amalfitana, Itália.

sábado, 12 de outubro de 2024

Trecho de "Férias de Agosto" de Cesare Pavese


"Ouvia os meus companheiros falarem e gabarem-se; eu ficava calado, não porque não gostasse de os ouvir, mas porque compreendia que as coisas de fato verdadeiras não consegue a gente contá-las".

Cesare Pavese - escritor e poeta italiano.

A foto é de uma estrada a caminho do Santuário da Madonna di Montevergine, em Mercogliano, Avelino, Itália.

 

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Os livros são como um veneno, de Abelardo Linares


"Os livros são como um veneno, mas um veneno raro que só faz mal em pequenas doses. Por exemplo, é muito perigoso ler um único livro, seja a Bíblia ou o Alcorão, ou administrar uma dieta de leitura baseada apenas nos autores premiados: Paulo Coelho ou Jorge Bucay. Mas em grandes quantidades, os livros, a leitura, sempre têm efeitos benéficos".

Abelardo Linares
poeta espanhol

sábado, 31 de agosto de 2024

A pianista, de Abdellatif Laâbi

 


Na cidade devastada
a pianista continua a tocar
envolta em si mesma
sozinha
entre os escombros.

Notamos perfeitamente
que ela não se dirige a ninguém
que ela nem ouve
o que toca.

Mas a sinfonia de sua dor
espalhada ao redor dela
cria uma obra-prima
que acessa o universal.

Abdellatif Laâbi 
poeta marroquino

A fotografia é de autor(a) desconhecido(a) mas a pianista é a talentosa Thais Nicolau.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Janela de Joan Margarit


Apagada a luz, aprecio a noite.
Quase não consigo distinguir a enorme
sombra do cipreste. Há dúvida e frio.
Vênus brilha em ângulo.
Assim como aqui dentro, tudo vai congelando.
Quando alguém envelhece, muitas vezes fica
estático olhando para a noite
como quem, antes de viajar, estuda
planos de uma cidade desconhecida.

Joan Margarit (1938-2021), poeta espanhol.
Poema retirado do livro "Cálculo de Estructuras",
com primeira edição publicada pela Edicions Proa, Barcelona, 2005.

A tela intitulada "Colheita de Algodão" é do artista mineiro Gledson Franqueira Amorelli (1948)


 

domingo, 25 de agosto de 2024

Imagino como seria te amar, de Ana Cristina Cesar


imagino como seria te amar

teria o gosto estranho das palavras que brincamos

e a seriedade de quando esquecemos quais palavras

imagino como seria te amar

desisto da ideia numa verbal volúpia

e recomeço a escrever poemas.

Ana Cristina Cesar (1952-1983), poeta carioca

Obra de arte da imensa artista Anita Malfatti (1889-1964)


sábado, 24 de agosto de 2024

Um poema de Sérgio Lima


O ato de colocar a nu o corpo da mulher é
dispor a sacralidade de sua imagem
(toda nua ela revela sua beatitude oculta)
nua
semi-aberta em si mesma obscura
as pernas separadas no grande prazer
face absoluta
do sagrado sacrilégio
da 
noite
imediata.

Sérgio Lima (1939-2024)
imenso e saudoso poeta surrealista brasileiro que nos deixou nos últimos dias.

Arte de Hector Júlio Páride Bernaró, o Carybé (1911-1997)  

domingo, 28 de julho de 2024

Poesia de José Maria Zonta


Não entres como turista no
coração de uma mulher
a bater fotos
a deixar latas de cerveja
buscando só imensas catedrais
e estátuas transparentes
com a mochila cheia de mapas
e fazendo refeições ligeiras

Há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração duma mulher
não bebas aí só um copo de mar
não entres no avião
toma o comboio da meia-lua
não reveles ali tuas fotos na hora
se não fizer muito frio
entra nu
não leves chapéu-de-chuva
e sobretudo não cortes árvores
no coração duma mulher
não costumam voltar a crescer.

José Maria Zonta (1961), poeta costa-riquenho

Tela do artista mineiro Gledson Franqueira Amorelli

 

sábado, 29 de junho de 2024

Anoitecer de Simone Teodoro


Tecer o amor
Depois tecer
a dor
de o amor ter sido.
Amortecer a queda.
Amor só é suave
na subida: canção de harpa.
O inverso
é farpa.

Simone Teodoro 
poeta mineira (1981)

Ao fundo tela do imenso artista paulista Agostinho Batista de Freitas (1927-1997)

 

sexta-feira, 21 de junho de 2024

O coração é como um fruto, de Ana Hatherly

O coração é como um fruto

cresce

amadurece

mas não cai:

se alguém o quiser

não morre.

Ana Hatherly (1929-2015), poeta portuguesa.

Obra de arte de Inimá de Paula (1918-1999)