Cuidado com a tua dor.
É um pássaro que canta
só para ti.
E lá fora o mundo inteiro é surdo.
Jila Mossaed
escritora e poeta sueca, nascida no Irã.
teria o gosto estranho das palavras que brincamos
e a seriedade de quando esquecemos quais palavras
imagino como seria te amar
desisto da ideia numa verbal volúpia
e recomeço a escrever poemas.
Ana Cristina Cesar (1952-1983), poeta carioca
Obra de arte da imensa artista Anita Malfatti (1889-1964)
O coração é como um fruto
cresce
amadurece
mas não cai:
se alguém o quiser
não morre.
Ana Hatherly (1929-2015), poeta portuguesa.
Obra de arte de Inimá de Paula (1918-1999)
cheia de paz e íntima da morte -
tão fresca e sombria
junto da minha respiração.
Para lá das palavras: escutamos
pulsações iguais - e apenas um
derradeiro sorvo de vida.
Na margem de negros lagos
volta a iluminar-se
este olho que só tu tornaste azul;
assim encostada ao teu regaço
e fechada no teu ventre
profundo, uno-me
ao teu peso mortal que se desvanece:
de tal modo que já não nos separa a terra -
mas para ambas se torna escura e leve.
Antônia Pozzi (1912-1938) - poeta italiana
Obra de arte de Amadeo Luciano Lorenzato (1900-1995)
acariciar
com os dedos
com a língua
e só depois
muito depois
se deixam morder.
Jorge de Sousa Braga (1957), poeta português
Arte de Dede Fedrizzi
é não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos.
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
descoberto em cada esquina dos meus versos.
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
ao tecer para ti novos regressos.
Daniel Faria (1971-1999), poeta português
Arte de Antônio Maia (1928)
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no universo da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.
Carlos de Oliveira (1921-1981), poeta português, nascido em Belém do Pará
Obra de arte de Amadeo Luciano Lorenzato, artista mineiro
Este poema é para ti.
É uma oferta de tréguas
dizendo que
nada no teu coração negro
me poderá assustar.
Olhei tempo demais
para o meu próprio coração.
Obrigada pela dádiva
das tuas incertezas.
Eunice de Souza (1940-2017), poeta indiana
Obra de arte de Waldomiro de Deus