sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Indo para a cama em uma noite de Dezembro, de Ellen Bass


Quando deslizo sob o cobertor e me aninho

em seu calor, penso que somos como páginas

de uma carta de amor escrita há trinta anos,

que algum deus antigo ainda lê, dia após dia,

e depois guarda de volta em seu envelope.

Ellen Bass - poeta norte-americana.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Use as coisas ao seu redor, de Raymond Carver


Use as coisas ao seu redor.
Esta chuva leve
lá fora, por exemplo.
Este cigarro entre meus dedos.
Estes pés em cima do sofá.
O som distante de um rock-and-roll,
a Ferrari vermelha na minha cabeça.
A mulher trombando,
bêbada, na cozinha...
Traga tudo para dentro, use tudo.

Raymond Carver 
poeta norte-americano

Foto de magnífica porta em prédio residencial na Piazza del Gesù Nuovo, em Napoles.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024


Cuidado com a tua dor.

É um pássaro que canta

só para ti.

E lá fora o mundo inteiro é surdo.

Jila Mossaed

escritora e poeta sueca, nascida no Irã. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

O mar, por Herberto Helder


"Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confiança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum  homem pode".

Herberto Helder
poeta português - (1930-2015)
trecho pinçado do livro "Os passos em volta".

A foto do mar é de Positano, Costa Amalfitana, Itália.

sábado, 12 de outubro de 2024

Trecho de "Férias de Agosto" de Cesare Pavese


"Ouvia os meus companheiros falarem e gabarem-se; eu ficava calado, não porque não gostasse de os ouvir, mas porque compreendia que as coisas de fato verdadeiras não consegue a gente contá-las".

Cesare Pavese - escritor e poeta italiano.

A foto é de uma estrada a caminho do Santuário da Madonna di Montevergine, em Mercogliano, Avelino, Itália.

 

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Os livros são como um veneno, de Abelardo Linares


"Os livros são como um veneno, mas um veneno raro que só faz mal em pequenas doses. Por exemplo, é muito perigoso ler um único livro, seja a Bíblia ou o Alcorão, ou administrar uma dieta de leitura baseada apenas nos autores premiados: Paulo Coelho ou Jorge Bucay. Mas em grandes quantidades, os livros, a leitura, sempre têm efeitos benéficos".

Abelardo Linares
poeta espanhol

sábado, 31 de agosto de 2024

A pianista, de Abdellatif Laâbi

 


Na cidade devastada
a pianista continua a tocar
envolta em si mesma
sozinha
entre os escombros.

Notamos perfeitamente
que ela não se dirige a ninguém
que ela nem ouve
o que toca.

Mas a sinfonia de sua dor
espalhada ao redor dela
cria uma obra-prima
que acessa o universal.

Abdellatif Laâbi 
poeta marroquino

A fotografia é de autor(a) desconhecido(a) mas a pianista é a talentosa Thais Nicolau.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Janela de Joan Margarit


Apagada a luz, aprecio a noite.
Quase não consigo distinguir a enorme
sombra do cipreste. Há dúvida e frio.
Vênus brilha em ângulo.
Assim como aqui dentro, tudo vai congelando.
Quando alguém envelhece, muitas vezes fica
estático olhando para a noite
como quem, antes de viajar, estuda
planos de uma cidade desconhecida.

Joan Margarit (1938-2021), poeta espanhol.
Poema retirado do livro "Cálculo de Estructuras",
com primeira edição publicada pela Edicions Proa, Barcelona, 2005.

A tela intitulada "Colheita de Algodão" é do artista mineiro Gledson Franqueira Amorelli (1948)


 

domingo, 25 de agosto de 2024

Imagino como seria te amar, de Ana Cristina Cesar


imagino como seria te amar

teria o gosto estranho das palavras que brincamos

e a seriedade de quando esquecemos quais palavras

imagino como seria te amar

desisto da ideia numa verbal volúpia

e recomeço a escrever poemas.

Ana Cristina Cesar (1952-1983), poeta carioca

Obra de arte da imensa artista Anita Malfatti (1889-1964)


sábado, 24 de agosto de 2024

Um poema de Sérgio Lima


O ato de colocar a nu o corpo da mulher é
dispor a sacralidade de sua imagem
(toda nua ela revela sua beatitude oculta)
nua
semi-aberta em si mesma obscura
as pernas separadas no grande prazer
face absoluta
do sagrado sacrilégio
da 
noite
imediata.

Sérgio Lima (1939-2024)
imenso e saudoso poeta surrealista brasileiro que nos deixou nos últimos dias.

Arte de Hector Júlio Páride Bernaró, o Carybé (1911-1997)  

domingo, 28 de julho de 2024

Poesia de José Maria Zonta


Não entres como turista no
coração de uma mulher
a bater fotos
a deixar latas de cerveja
buscando só imensas catedrais
e estátuas transparentes
com a mochila cheia de mapas
e fazendo refeições ligeiras

Há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração duma mulher
não bebas aí só um copo de mar
não entres no avião
toma o comboio da meia-lua
não reveles ali tuas fotos na hora
se não fizer muito frio
entra nu
não leves chapéu-de-chuva
e sobretudo não cortes árvores
no coração duma mulher
não costumam voltar a crescer.

José Maria Zonta (1961), poeta costa-riquenho

Tela do artista mineiro Gledson Franqueira Amorelli

 

sábado, 29 de junho de 2024

Anoitecer de Simone Teodoro


Tecer o amor
Depois tecer
a dor
de o amor ter sido.
Amortecer a queda.
Amor só é suave
na subida: canção de harpa.
O inverso
é farpa.

Simone Teodoro 
poeta mineira (1981)

Ao fundo tela do imenso artista paulista Agostinho Batista de Freitas (1927-1997)

 

sexta-feira, 21 de junho de 2024

O coração é como um fruto, de Ana Hatherly

O coração é como um fruto

cresce

amadurece

mas não cai:

se alguém o quiser

não morre.

Ana Hatherly (1929-2015), poeta portuguesa.

Obra de arte de Inimá de Paula (1918-1999)

sábado, 25 de maio de 2024

A avó, de Antônia Pozzi


Abraço-te para sentir a tua carne

cheia de paz e íntima da morte -

tão fresca e sombria

junto da minha respiração.

Para lá das palavras: escutamos

pulsações iguais - e apenas um

derradeiro sorvo de vida.

Na margem de negros lagos

volta a iluminar-se

este olho que só tu tornaste azul;

assim encostada ao teu regaço

e fechada no teu ventre

profundo, uno-me

ao teu peso mortal que se desvanece:

de tal modo que já não nos separa a terra -

mas para ambas se torna escura e leve.

Antônia Pozzi (1912-1938) - poeta italiana

Obra de arte de Amadeo Luciano Lorenzato (1900-1995)

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Diospiros de Jorge de Sousa Braga


Há frutos que é preciso

acariciar

com os dedos

com a língua

e só depois

muito depois

se deixam morder.

Jorge de Sousa Braga (1957), poeta português

Arte de Dede Fedrizzi

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Ítaca, de Daniel Faria


O que dói

é não poder apagar a tua ausência

e repetir dia após dia os mesmos gestos.


O que dói

é o teu nome que ficou como mendigo

descoberto em cada esquina dos meus versos.


O que dói

é tudo e mais aquilo que desteço

ao tecer para ti novos regressos.

Daniel Faria (1971-1999), poeta português

Arte de Antônio Maia (1928) 

sexta-feira, 15 de março de 2024

Infância de Carlos de Oliveira


Sonhos

enormes como cedros

que é preciso

trazer de longe

aos ombros

para achar 

no universo da memória

este rumor

de lume:

o teu perfume,

lenha 

da melancolia.

Carlos de Oliveira (1921-1981), poeta português, nascido em Belém do Pará

Obra de arte de Amadeo Luciano Lorenzato, artista mineiro 


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Conselho de Eugénio de Andrade


Conselho

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda
como um fruto
ao passar o vento
que mereça.

Eugénio de Andrade (1923-2005), poeta português

Arte de Aldemir Martins (1922-2006)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Um aforismo de Jean Cocteau


"Eu sei que a poesia é imprescindível, só não sei para o quê."

Jean Cocteau (1889-19963), poeta e romancista francês.

Belíssima paisagem do artista cearense Aldemir Martins (1922-2006)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Um aforismo de Manuel de Freitas


"Os poemas são como o mundo: não rimam".

Manuel de Freitas, poeta português

Belíssimo pássaro do artista Aldemir Martins (1922-2006)